Artigo originalmente publicado na Tribuna do Norte em 20 de junho de 2026.
Há uma indústria funcionando no Seridó que muita gente desconhece. São cerca de 130 empresas espalhadas por Caicó, Serra Negra do Norte e São José do Seridó, com produção mensal de 2 milhões de bonés e aproximadamente 3 mil postos de trabalho diretos e indiretos. É o 2º maior polo boneleiro do Brasil, atrás apenas de Apucarana/PR. E está no sertão, região historicamente castigada pela seca, pelo isolamento e pela escassez de alternativas industriais.
Cada fábrica de boné que opera no Seridó é prova de que a livre iniciativa prospera onde encontra oportunidade. O empreendedor seridoense cria, emprega, inova e gera riqueza. O Arranjo Produtivo Local de Bonelaria do Seridó, apoiado pelo Sebrae desde 2004, é um exemplo de prosperidade construída de baixo para cima, pela iniciativa de pequenos empresários.
A pergunta que cabe é: até onde essa cadeia pode crescer?
O mercado nacional já está sendo abastecido. O próximo passo é o comércio exterior. A bonelaria do Seridó se encaixa no que o programa RN + Exportação, lançado em outubro de 2025, propõe: diversificar a pauta exportadora com produtos de maior valor agregado e inserir micro e pequenas empresas potiguares no mercado internacional.
O boné do Seridó, especialmente o personalizado, segmento em que a região já tem reputação nacional, reúne características valorizadas no exterior: é manufaturado, tem identidade regional e escala para atender contratos regulares.
Hoje o Rio Grande do Norte conta com 140 empresas atuando no mercado exterior, com meta de chegar entre 250 e 300. Nesse contexto, a bonelaria representa uma oportunidade concreta de interiorizar a agenda exportadora e inserir pequenos negócios em cadeias comerciais mais sofisticadas.
Um instrumento importante para fortalecer essa estratégia é a Indicação Geográfica. Em maio de 2026, Apucarana iniciou o processo formal para obter a IG do boné paranaense.
O Seridó tem condições de seguir o mesmo caminho. A região já acumulou experiência com os Bordados de Caicó, que conquistaram o selo de IG do INPI, abrangendo 12 municípios seridoenses. Segundo estimativas do INPI, uma IG pode elevar o valor de um produto em até 50%. Para um setor formado majoritariamente por pequenos negócios, esse diferencial pode ser decisivo.
O terceiro aspecto estratégico é a sustentabilidade. A cadeia boneleira gera resíduos têxteis que, quando bem aproveitados, podem se transformar em matéria-prima para artesanato, acessórios e outras atividades produtivas. Em uma região com tradição no bordado artesanal, a integração entre indústria e economia circular cria novas oportunidades de renda e reduz impactos ambientais.
A bonelaria potiguar tem polo consolidado, escala produtiva, tradição, apoio institucional e potencial exportador.
O que falta é transformar esses ativos em estratégia coletiva: ampliar a cooperação empresarial, fortalecer a governança do setor, buscar a IG e ocupar espaços em mercados internacionais.
O boné do Seridó já veste o Brasil. Está na hora de vestir o mundo, com nome, origem e responsabilidade.
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