Câmara Cascudo, na História da Cidade do Natal, mostrou como a cidade nasceu no alto, na Cidade Alta, e desceu para a Ribeira, junto ao rio e ao porto. Depois veio o Alecrim, que se tornou o grande bairro do comércio popular. Por décadas, abrir um negócio em Natal era abrir um negócio no centro. Essa realidade mudou.
O estudo “A nova geografia dos pequenos negócios de Natal”, do Sebrae RN/DataLab, mostra o tamanho dessa mudança. O trabalho usa o cadastro atualizado de CNPJs da Receita Federal e o Censo 2022 do IBGE com suas projeções. Em janeiro de 2016, a cidade tinha 68,2 mil pequenos negócios ativos. Em janeiro de 2026, eram 102,1 mil. Alta de 50%. E 79% dos que estão ativos hoje abriram na última década.
O motor foi o Microempreendedor Individual (MEI), responsável por 77% desse crescimento. Os MEIs dobraram, de 25,8 mil para 52,0 mil, e já são 51% dos pequenos negócios. As micro e pequenas empresas cresceram 18%, de 42,4 mil para 50,2 mil. O comércio “cedeu” participação e os serviços ganharam espaço. Enquanto os primeiros passaram de 42% para 26%, o segundo cresceu de 43% para 60% no total.
Como os pequenos negócios em Natal estão mudando de endereço
O centro histórico perdeu protagonismo. Cidade Alta, Ribeira e Alecrim já vinham perdendo relevância e tinham 13,7% dos pequenos negócios em 2016. Hoje têm 7,9%. Em micro e pequenas empresas, os três bairros encolheram: Cidade Alta −33%, Ribeira −26% e Alecrim −23%.
Os negócios seguiram dois caminhos. O primeiro leva ao eixo Lagoa Nova–Tirol–Candelária–Capim Macio, que passou de 31% para 40% das ME e EPP da cidade. Ali se concentram saúde, serviços jurídicos e contábeis e tecnologia. O crescimento também é vertical. Em 2025, 9,2% das aberturas ocorreram em centros empresariais e médicos. Em 2016, eram 1,7%.
O segundo caminho leva às novas centralidades das zonas Norte e Oeste: Planalto, Pajuçara, Barro Vermelho, Nossa Senhora da Apresentação e Lagoa Azul. Em 2024, esses bairros ultrapassaram o centro histórico em número de micro e pequenas empresas.
Parte desse movimento vem do trabalho por aplicativo. Os MEIs de transporte e entregas passaram de 613 para 5.200 registros ativos e já respondem por 16% das aberturas de MEI. Nas zonas Norte e Oeste, explicam 23% do crescimento do MEI.
O papel do MEI no crescimento dos pequenos negócios em Natal
O dado mais importante, porém, é outro. Nas zonas Norte e Oeste, cerca de metade das ME e EPP (50% e 48%) começou como MEI e cresceu. Na periferia, o MEI é o principal caminho para formar empresas. É a porta de entrada cumprindo seu papel.
Ficam dois recados. O primeiro é que o teto da Microempresa e da Empresa de Pequeno Porte precisa ser atualizado, pelo menos na proporção aplicada ao MEI, para que quem cresce não seja empurrado para fora antes da hora. O segundo é que o centro histórico pede uma política própria. Ribeira, Cidade Alta e Alecrim têm infraestrutura, memória e localização. Falta um projeto que devolva a eles o papel de polo.
Natal mudou de endereço, mas o empreendedor continua o mesmo. Não existe pequeno empresário. Existe grande empresário de pequena empresa, e ele está em todos os bairros da cidade.
Se você tem um pequeno negócio em Natal ou qualquer parte do Rio Grande do Norte, conte com o Sebrae RN para orientação especializada.
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Artigo originalmente publicado na Tribuna do Norte em 07 de novembro de 2026. Leia na íntegra em: https://tribunadonorte.com.br/colunas/natal-mudou-de-endereco/